terça-feira, 21 de novembro de 2006

(...)
Lamentemos juntos que alguém te tenha
tirado do teu espelho. Ainda sabes chorar?
Não sabes. A força e a pressão das tuas lágrimas
transformaste-as nesse maduro olhar,
e estavas prestes a mudar toda a seiva
que em ti havia numa forte existência,
que sobe e que circula, equilibrada e às cegas.
Então um acaso arrastou-te, o teu último acaso
arrancou-te do teu mais longínquo progresso
para um mundo onde as seivas só querem.
Não te arrastou de todo; primeiro só um pedaço,
mas quando em volta dele de dia para dia
a realidade de tal modo cresceu que se tornou pesado,
então precisavas-te toda: então foste
e partiste-te em migalhas e a custo para fora
da tua lei, porque te precisavas. Então
demoliste-te e cavaste terra quente e nocturna
do teu coração as sementes inda verdes
donde havia de germinar a tua morte: a tua,
a tua morte própria à tua vida própria.
E comeste-os, os grãos da tua morte,
como todos os outros, comeste os seus grãos,
e ficaste com um rassaibo de doçura em ti
que tu não julgavas, tinhas lábios doces,
tu, que já por dentro eras doce nos sentidos.
(...)
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Rainer Maria Rilke - Requiem
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