«Quem na noite de 29 de Agosto se chegar à beira-mar, verificará talvez um movimento desusado. Desde o pôr-do-sol, aparecerão grupos de pessoas vindas não se sabe de onde, com burros, toalhas e mantimentos. São os camponeses que vêm para o “Banho 29”. É um misto de tradição folclórica e de ritual a cumprir, transmitido de pais para filhos com a indicação de que o banho daquela noite vale por 29...»
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Desciam as gentes das serras algarvias para tomar o único banho do ano de mar. Vinham carregados com o farnel para a noite longa e tornavam a casa com a alma lavada. Mesmo quem aqui morava, e a dureza da vida não permita, ou o gosto não estava voltado para a praia, ninguém dispensava o banho milagroso, aquele que limpava os males que a vida lhes trazia ao longo do ano.
Uma tradição antiga, amada e seguida por quem nestas paragens sempre esperou as primeiras chuvas, e conhece os ventos frios. Dantes deixavam-se as portas e janelas abertas para deixar entrar a brisa que refresca a paredes, agora tranca-se o casario branco e corre-se as pedras até que se encontre a orla de oiro e espuma.
Hoje é a noite em que miúdos e graúdos procuram a rua em busca da maré. Deixa-se as emoções fluir ao sabor das ondas e das gargantas regadas de outros espíritos. Os barcos saem ao mar e entram os corpos. Acendem-se fogueiras, estala a música, saboreia-se a brisa carregada de aromas de oregão e louro, que temperam as carnes e o peixe. Os céus enchem-se de luzes e pólvora e por momentos todos se calam. É um brinde a mais um verão que ainda rebenta forte, mas que finda só nos calendários. Que se rode os jarros do vinho novo, do vinho velho, do que fôr e que os pés descalços nos conduzam noutras danças. Abraçam-nos os estranhos e adoçam a noite os sorrisos e gargalhadas. As dunas escondem os amores e ardores fortuitos. A lua e o mar banham-nos nesta noite que é quente e que implora à exaltação dos sentidos. Quando por fim o corpo quebrar a areia aconchega a todos, até que, a pele queimada pelo sol alto nos desperte e mande embora com o cantar das cigarras.


2 comentários:
Agora fiquei cá com uma inveja ...
come next year, please!!! as festas no baiha são... inesqueciveis. Cafofinho em Lagos há sempre
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