sábado, 25 de março de 2006

Lá onde nasce o sol nascemos também nós
e novamente o ar nos traz o hálito do céu
Toda a noite cantou a ave nas trevas mora
e esse canto seu escureceu a escuridão
É pois de mais este lugar para se limitar
a ser a simples capital do inferno
sem lá por isso ser terrível como o é a vida
coisa que sem vontade nossa nos aconteceu
e agora cumprimos com o necessário ritual
E que fazer de objectos como as minhas duas mãos
comigo há tanto tempo mas que só agora vi?
Montanha existirá tão alta que me cubra
mãos que ao petrificar-me o pensamento
não deixarão decerto que eu desfaça quanto fiz
com quem do que disse se desdiz?
Não é ainda a mágoa transparente e pura como a água
nem vem a dor tornar mais dolorosa a dor
assim como só o amor pode gerar ou destruir o amor
Que lastro a consciência impõe ao pensamento
não o pensar sem logo perturbar
a inocência líquida de olhar
E o medo tantos movimentos mobiliza que
por vezes desfigura a própria face da locura
(...)

Ruy Belo
"Discurso branco sobre fundo negro"

Sem comentários: