segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

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Bate-me até doer… despe o casaco, tira o lenço e vomita cabelos. Acende as luzes do quarto da tua avó e queima-a. Dança como se o tempo estivesse parado… Gritaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
Bate-me até sangrar, para ver se acordo, para ver estou viva.
Na despensa da tia Júlia há um frasco de marasmo… os outros foram comidos pela lebre azul. A lebre azul era amiga das cinco vacas que todas as noites se plantavam na varanda a ver passar os meninos, comiam romãs e fumavam barbas de milho. Os meninos fugiam delas. Diziam que eram bruxas loucas que queriam os seus sapatinhos, mas apenas os pretos.
Bate-me até quebrar… até que não reste mais osso… e dança como se tudo fosse cristalizado… mas não grites… sussurra-me, faz-me estremecer… porque ainda gosto que me fales baixinho. Tira-me do sério com um arrepio que me deixe possuída… e vai-te embora. És tolo e parvo e cego, mas é deles que pertence o reino dos céus… pelos menos o dizia o homem da venda dos copinhos de três tostões. Zurrava e comia alcagoitas…

Bate-me para ver se acredito… advinha o que fiz desta vez!

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